Uma reportagem da TVI sobre recuperação regenerativa de terrenos ardidos
No Outono de 2017, poucos meses depois dos grandes incêndios que marcaram profundamente o país, a TVI visitou um dos terrenos onde estávamos a começar um trabalho de recuperação da paisagem.
O cenário era duro. O fogo tinha passado por ali com violência, deixando o solo exposto, a vegetação destruída e uma paisagem subitamente vulnerável à erosão. Quando chegam as primeiras chuvas depois de um incêndio desta dimensão, o risco não desaparece. Pelo contrário: muda de forma. Sem raízes, sem coberto vegetal e sem matéria orgânica suficiente para amortecer a água, o solo pode ser arrastado rapidamente, contaminando ribeiros e barragens e comprometendo a própria capacidade de regeneração do terreno.
Na altura, a urgência parecia evidente. Mas a resposta não podia ser simplesmente plantar árvores o mais depressa possível.
Antes de replantar, era necessário recuperar as condições mínimas para que a paisagem voltasse a funcionar.
A reportagem registou esse momento inicial: um terreno ainda ferido pelo incêndio e um trabalho que começava menos pelas árvores do que pela água e pelo solo. A prioridade era moldar a paisagem, reduzir a velocidade das escorrências, travar a erosão e criar condições para aumentar a infiltração da água.
Isso implicava olhar para o terreno como um sistema.
Era necessário compreender por onde corria a água, onde se acumulava, onde ganhava velocidade e onde podia ser retida. Em vez de deixar a chuva atravessar a propriedade e transportar consigo a camada fértil do solo, procurava-se redistribuí-la pela paisagem, abrandá-la e transformá-la num recurso para a recuperação ecológica.
O primeiro gesto foi, por isso, hidrológico.
Foram criadas estruturas de retenção e infiltração, ajustadas à topografia, com o objectivo de reduzir a erosão e devolver água ao solo. Só depois se avançou para a recuperação do coberto vegetal, através de sementeiras de prados e da devolução de matéria orgânica ao terreno.
Esta sequência era essencial. Um solo degradado e exposto não oferece boas condições para o estabelecimento de novas árvores. Plantar imediatamente poderia produzir uma imagem de resposta rápida, mas não necessariamente uma recuperação efectiva da paisagem.
O caminho escolhido foi outro: preparar primeiro o terreno, deixar o solo recuperar, criar coberto vegetal, controlar as escorrências e avançar depois para uma plantação diversificada.
Também aí a abordagem se afastava da lógica dominante. Em vez de repor uma monocultura vulnerável, procurava-se desenhar um sistema mais complexo, com árvores, arbustos, diferentes estratos vegetais e culturas complementares. Uma paisagem capaz de produzir, mas também de reter água, regenerar o solo, criar biodiversidade e reduzir o risco de incêndio.
A reportagem da TVI acompanhou esse início.
Na altura, tratava-se ainda de uma promessa: mostrar que um terreno ardido não tinha de ser apenas replantado, mas redesenhado. Mostrar que era possível transformar uma paisagem fragilizada numa paisagem mais resiliente. E mostrar também que o combate aos incêndios não começa apenas quando o fogo chega. Começa muito antes, na forma como organizamos a água, o solo, a vegetação e o uso do território.
Passaram vários anos desde então. Mas a ideia central continua inteiramente actual.
Depois do fogo, a primeira urgência não é plantar depressa.
É voltar a dar à paisagem condições para viver.