Este verão, a Portugal Film School veio ao Monte da Estrada e fez-me um retrato. A Marianne van Helden realizou; o Willem Bekker tratou da câmara e do som; o Ian Davidson supervisionou; a Jessy Pérukel montou. A Portugal Film School organiza todos os anos um curso de verão na escola do Monte da Estrada, em Odemira; traz cineastas internacionais a trabalhar sobre realidades e histórias locais. O resultado foi o documentário Beyond Sustainability Master. Ficou qualquer coisa de verdadeiro naquele vídeo; e isso é inteiramente mérito deles.
Não fui um miúdo de escola. Cresci na Charneca da Caparica até aos seis anos; depois a família mudou-se para Faro. Foi lá que as coisas começaram a complicar-se. A escola na cidade não me dizia nada; não me sentia em casa, não via perspectivas. Toda a gente me dizia para escolher o que queria ser. Eu não fazia ideia.
O encontro com a permacultura foi quase banal. Um amigo pediu-me para regar o jardim dele enquanto estava fora; disse que bastava ir uma vez por semana. Quando lá cheguei, havia uma camada espessa de palha a cobrir o solo. Levantei-a e pus a mão na terra; passada uma semana, não estava seca. Esse momento simples abriu tudo o resto.
A permacultura é uma metodologia de design para qualquer tipo de assentamento humano; uma síntese de técnicas de todo o mundo que funcionam, reunidas num só corpo de conhecimento. Mas o que me interessa mesmo vai além da sustentabilidade. Os sistemas ecológicos estão gravemente degradados; o tecido social das zonas rurais está muito fragmentado. Não chega sustentar: é preciso regenerar. Restaurar sistemas ecológicos, sim; mas também a auto-estima das pessoas e o desenvolvimento económico local.
A minha comunidade ideal é uma aldeia com florestas, um rio e lagos que pertencem a todos e a ninguém.