Estamos familiarizados com os grandes ciclos naturais; o da água, o do carbono, o do azoto. São ensinados nas escolas, integrados nos modelos climáticos, citados nos relatórios científicos. Mas há um ciclo que raramente entra nessa conversa; o ciclo eléctrico da Terra. Um fluxo subtil, contínuo, que pode ser tão fundamental para o equilíbrio do planeta quanto qualquer outro; e que a biosfera, a camada viva que cobre a Terra, pode estar a conduzir silenciosamente há milhões de anos.
A biosfera como condutor
A biosfera não é apenas o conjunto dos seres vivos. É uma camada activa; árvores, plantas, solos, água, microrganismos; que processa energia, regula ciclos e mantém condições de habitabilidade. O que raramente se discute é que esta camada pode também funcionar como condutor eléctrico natural.
Em ecossistemas ricos; florestas densas, zonas húmidas, pradarias intactas; a abundância de humidade e matéria orgânica cria condições favoráveis à circulação de cargas eléctricas entre o solo e a atmosfera. O solo húmido conduz electricidade; tal como qualquer condutor físico. A matéria orgânica viva amplifica essa capacidade. Quando estes ecossistemas estão intactos, a troca energética entre terra e céu flui de forma contínua e equilibrada.
Pensar a floresta apenas como produtora de oxigénio ou reservatório de carbono é subvalorizar o que ela faz. Pode ser, simultaneamente, parte da fiação do sistema energético planetário.
O circuito eléctrico global
A física atmosférica reconhece há décadas a existência do Circuito Eléctrico Global; um sistema contínuo de troca de cargas entre a superfície terrestre e a ionosfera. As trovoadas são o elemento mais visível deste circuito; descarregam energia e mantêm o desequilíbrio de cargas que sustenta o fluxo. Mas o circuito não para quando a tempestade passa. Continua, silencioso, mediado pela condutividade da superfície terrestre.
É aqui que a biosfera entra com um papel que começa apenas agora a ser investigado com seriedade. Ecossistemas húmidos e vivos podem ser condutores activos deste circuito; não apenas passivos receptores de energia atmosférica, mas participantes na sua regulação. A sua degradação pode não ser apenas uma perda ecológica; pode ser uma interrupção no circuito.
Desertificação: cortar o fluxo
A desertificação é geralmente descrita em termos de perda de solo, de água, de biodiversidade. Mas se a biosfera conduz electricidade, a desertificação é também a perda de condutividade. Quando destruímos florestas e zonas húmidas, a terra seca, a matéria orgânica desaparece, o solo compacta;se e impermeabiliza. O condutor torna;se isolante.
As consequências que conhecemos; erosão, perda de fertilidade, colapso de ecossistemas, alteração de padrões de precipitação; podem ter uma dimensão adicional ainda pouco compreendida: a interrupção de fluxos energéticos subtis que regulam o equilíbrio entre terra e atmosfera.
Isto não invalida o que já sabemos sobre desertificação. Acrescenta uma camada de complexidade que justifica ainda mais a urgência da regeneração.
O solo vivo como interface
O solo regenerado é mais do que substrato; é interface. Entre a raiz e a rocha, entre o vivo e o mineral, entre o visível e o invisível. A sua condutividade eléctrica é determinada pela humidade, pela salinidade, pela densidade de vida microbiana e pela quantidade de matéria orgânica. Um solo vivo conduz; um solo morto isola.
Ao restaurar vegetação, captar água e recuperar solos, não estamos apenas a inverter a desertificação no sentido ecológico convencional. Podemos estar a restabelecer a capacidade da terra de participar nos fluxos energéticos que a sustentam. Reflorestação, agroecologia, gestão hídrica integrada; estas práticas têm valor que vai além do que os modelos actuais conseguem medir.
O corpo humano no circuito
O corpo humano é maioritariamente composto por água e minerais; conduz electricidade naturalmente. A actividade eléctrica regula o coração, o cérebro, o sistema nervoso. Somos, nesse sentido, parte do mesmo circuito que atravessa o solo e a atmosfera.
O contacto directo com o solo; caminhar descalço, trabalhar a terra, estar em contacto físico com superfícies naturais; tem sido associado em estudos recentes a efeitos mensuráveis na fisiologia humana: melhoria do sono, redução de marcadores inflamatórios, regulação do ritmo cardíaco. A Terra tem carga eléctrica negativa natural. O contacto directo pode facilitar a neutralização de cargas positivas acumuladas; um efeito simples, acessível, e profundamente esquecido na vida contemporânea.
Reconectar o corpo ao solo não é misticismo; é fisiologia. E talvez seja também, numa escala mais vasta, uma forma de reconhecer que fazemos parte do circuito; não observadores dele.
Regenerar o ciclo invisível
Restaurar florestas e solos é um acto com consequências que excedem o que conseguimos actualmente quantificar. Recuperamos biodiversidade, regulamos água, fixamos carbono; isso sabemo;lo. Mas podemos também estar a restabelecer fluxos energéticos subtis que mantêm o equilíbrio entre a Terra e a sua atmosfera; um equilíbrio construído ao longo de milhões de anos de vida em interacção com o planeta.
O ciclo da electricidade pode não ser ainda uma certeza científica consolidada. Mas é uma hipótese coerente com o que sabemos sobre condutividade, sobre ecossistemas, sobre o Circuito Eléctrico Global. E é uma razão adicional; às muitas que já existem; para tratar a biosfera com a seriedade que merece.
Em vez de continuar um caminho de destruição, podemos escolher regenerar. Restaurar o equilíbrio ecológico, energético e humano. Reconhecer que a biosfera, o planeta e a humanidade fazem parte do mesmo circuito; e que interrompê;lo tem consequências que ainda estamos a aprender a ver.
Nuno Mamede Santos · Março 2024 · Portugal