Nuno Mamede Santos · Dezembro 2024 · Portugal
Em 2003, cheguei à Quinta da Ana Velha, em Olhão, como caseiro. O meu amigo José Godinho tinha uma visão para aquele lugar e eu tinha vontade de aprender. Foi aí que percebi, pela primeira vez e de forma visceral, o que significa cultivar com atenção; observar o solo, respeitar os ciclos, trabalhar com a terra em vez de contra ela.
Nos anos que se seguiram, percorri um caminho que me levou da agricultura à consultoria, de Portugal a África, de quintas individuais a bacias hidrográficas inteiras. Aprendi a ler paisagens, a desenhar sistemas, a entender como a água e o solo e a vegetação e os animais formam um tecido que ou se cuida ou se desfaz.
Agora regresso à base. Estou a desenvolver, com a minha família, um projecto agrícola próprio. E uma das primeiras decisões que tomei foi certificar a propriedade em modo de produção biológica.
Não foi uma decisão simples. Nem é uma decisão apenas técnica.
Porquê certificar
A certificação biológica é frequentemente apresentada como garantia de qualidade para o consumidor. É isso também. Mas para mim significa outra coisa antes disso.
Significa tornar visível o que fazemos. A agricultura regenerativa que defendo e pratico não tem ainda uma certificação própria; o biológico é o enquadramento legal mais próximo dos princípios que guiam o meu trabalho. Certificar é uma forma de dizer, com linguagem reconhecida, que as escolhas que fazemos no campo têm uma intenção e uma coerência que vai além do rendimento de curto prazo.
Significa também criar uma relação diferente com quem nos escolhe. Não uma relação de consumidor anónimo e produtor invisível; uma relação de confiança construída ao longo do tempo, onde quem compra sabe como foi produzido, quem produziu e com que critérios. Esta transparência não é apenas ética; é estratégica. Os consumidores que compreendem o valor do que compram pagam melhor, fidelizam-se mais e tornam-se aliados do projecto em vez de simples clientes.
E significa, por fim, contribuir para um sistema alimentar que precisa urgentemente de mais produtores comprometidos com a regeneração do solo e da biodiversidade. A certificação biológica não é perfeita; tem burocracia, tem custos, tem limitações. Mas é o sistema disponível. E participar nele, melhorá-lo por dentro, mostrar que é possível produzir bem dentro dos seus critérios; isso tem valor colectivo.
Os desafios reais
Não vou fingir que o processo é simples. Não é.
A burocracia é real e pesada para quem não tem apoio administrativo. Os custos iniciais de conversão e certificação são um obstáculo genuíno para pequenos produtores com capitais limitados. A falta de formação prática no terreno; em vez de manuais e formulários; deixa muitos agricultores perdidos num processo que devia ser de aprendizagem mas frequentemente se torna de conformidade cega. E os canais de comercialização justos; onde o certificado se traduz efectivamente num preço que cobre os custos reais de produção; continuam a ser escassos e mal distribuídos pelo território.
Estes não são problemas menores. São razões pelas quais muitos produtores com práticas excelentes nunca certificam; e razões pelas quais o sistema biológico em Portugal fica muito aquém do seu potencial.
Mas são problemas resolvíveis. E a forma de os resolver passa por pensar o processo de certificação não como procedimento administrativo mas como construção colectiva.
O que podia ser diferente
A certificação devia sentir-se como um caminho, não como uma barreira. Cada fase concluída; cada auditoria passada, cada requisito cumprido; é uma conquista real que merece reconhecimento. Não apenas o carimbo final, mas o percurso.
Isto significa, na prática, criar mecanismos de apoio que acompanhem o produtor ao longo do processo: formação directamente no terreno, com técnicos que conhecem as culturas e o solo e os desafios específicos de cada região; apoio administrativo partilhado entre produtores vizinhos que reduz custos e distribui carga burocrática; reconhecimento progressivo que permite ao produtor comunicar o seu compromisso antes de ter o certificado completo; e canais de comercialização construídos em conjunto com restaurantes, mercearias e grupos de consumo que valorizam efectivamente o processo.
A relação entre produtor e consumidor pode ser muito mais rica do que a troca de um produto por um preço. Eventos na exploração; onde as pessoas vêem o que estão a comprar, conhecem quem produziu, percebem as escolhas que foram feitas; criam uma ligação que nenhuma campanha de marketing consegue replicar. Um consumidor que passou uma manhã na quinta a perceber como funciona o sistema de pastoreio ou como se faz a compostagem não é um cliente; é um aliado.
A certificação dentro de um sistema maior
Há uma dimensão desta decisão que só faz sentido à luz do trabalho que tenho feito nos últimos anos em economia biorregional e sistemas de valor local.
A certificação biológica é, no fundo, um mecanismo de verificação; uma forma de tornar visível e credível o valor de práticas que de outra forma seriam invisíveis ao mercado. É exactamente o mesmo problema que um sistema de moeda biorregional tenta resolver: como tornar o valor ecológico real mensurável, verificável e reconhecido economicamente.
Nesse sentido, a certificação biológica e os sistemas de crédito local não são instrumentos separados. São camadas do mesmo projecto; criar linguagens económicas que reconheçam o que a agricultura convencional e os mercados globais continuam a ignorar: que cultivar bem custa mais, vale mais, e produz externalidades positivas que beneficiam toda a comunidade.
Um produtor certificado que participa numa rede de economia local não está apenas a vender produtos biológicos. Está a demonstrar que é possível produzir dentro de critérios ecológicos rigorosos, comercializar com margens justas, e contribuir para a saúde de um território que todos partilham. Esta demonstração tem valor muito além da exploração individual.
O regresso à base
Vinte e dois anos depois de Olhão, voltei à terra com mais perguntas do que respostas mas com muito mais ferramentas para as trabalhar.
A certificação biológica é o primeiro passo formal deste projecto familiar. Não o mais importante; o mais visível. O que realmente importa está debaixo disso: o solo que queremos construir, os ciclos que queremos fechar, a relação com o território que queremos aprofundar, e a comunidade de consumidores, vizinhos e colaboradores que queremos construir à volta do que fazemos.
A certificação é o início da jornada. A jornada é muito mais longa; e muito mais interessante.
Nuno Mamede Santos · Dezembro 2024 · Portugal