A Guerra que Estamos a Perder; e Como a Podemos Ganhar de Outra Forma
Todos os anos, o Estado português gasta milhões a cortar árvores. Não árvores doentes. Não árvores em risco de queda. Árvores saudáveis, a crescer vigorosamente em terrenos que mais ninguém quer. Cortam-se, empilham-se, queimam-se. Às vezes aplicam-se herbicidas para garantir que não voltam. A operação repete-se no ano seguinte, porque as árvores; acácias, eucaliptos, ailanthus; voltam sempre.
Chamamos a isto «controlo de invasoras». Gastámos mais de 20 milhões de euros entre 2018 e 2021 nesta guerra. Em 2023, mais 1,5 milhões. Os resultados? As invasoras continuam a expandir-se. E nós continuamos a queimar biomassa perfeitamente utilizável enquanto importamos lenha e pellets para aquecer casas.
Há qualquer coisa de profundamente irracional nisto.
Portugal tem um mercado de lenha que se aproxima dos mil milhões de euros anuais. Centenas de milhares de famílias dependem de biomassa para aquecimento; e esse número está a crescer, à medida que os preços da eletricidade e do gás disparam. A procura excede a oferta sustentável. Cortamos sobreiros e azinheiras mais depressa do que regeneram. Importamos madeira de países com florestas em melhor estado que as nossas.
Ao mesmo tempo, temos milhões de toneladas de biomassa a crescer em terrenos abandonados, estradas florestais, taludes, bermas. Biomassa que classificamos como «problema» e queimamos sem aproveitamento. Biomassa que, se não a cortarmos nós, arde sozinha no verão seguinte; e aí já não aquece ninguém, apenas destrói.
A forma como falamos de espécies «invasoras» revela muito sobre a nossa relação com a paisagem. Usamos vocabulário militar: invasão, combate, erradicação, controlo. As plantas tornam-se inimigas. A gestão torna-se guerra.
Mas as acácias e os eucaliptos não invadiram Portugal por acaso. Nós plantámo-los. O eucalipto foi promovido pelo Estado durante décadas como solução para terrenos «improdutivos». As acácias vieram para fixar dunas e estabilizar taludes de estradas e caminhos de ferro. Fizeram exatamente aquilo para que foram trazidas: crescer depressa em solos pobres onde mais nada pegava.
Agora que nos tornaram inconvenientes, declaramos-lhes guerra. Mas uma guerra que não podemos vencer; porque estas espécies estão perfeitamente adaptadas às condições que nós próprios criámos: solos degradados, paisagens abandonadas, clima mediterrânico com verões cada vez mais secos e quentes.
A questão não é se conseguimos eliminá-las. Não conseguimos. A questão é se podemos integrá-las num sistema que faça sentido.
Acácias e eucaliptos são espécies pioneiras. Isto significa que colonizam terrenos perturbados, estabilizam solos, acumulam biomassa rapidamente. Em termos ecológicos, preparam o terreno para espécies mais exigentes que virão depois.
A acácia, em particular, fixa azoto atmosférico no solo; um serviço que pagamos caro quando compramos fertilizantes sintéticos. Uma acácia adulta pode adicionar 100 a 200 kg de azoto por hectare por ano. Quando morre ou é cortada, esse azoto fica disponível para as plantas que a substituem.
O eucalipto, apesar da má fama, sequestra carbono a uma velocidade que poucas espécies nativas igualam. Uma plantação de eucalipto bem gerida pode capturar 20 toneladas de CO2 por hectare por ano. O problema não é o eucalipto em si; é a monocultura industrial, a ausência de gestão, a falta de descontinuidades na paisagem.
Nada disto significa que devamos deixar estas espécies expandir-se sem controlo. Significa que a forma como as gerimos pode ser radicalmente diferente.
Em vez de cortar e queimar, proponho cortar e usar.
Primeiro, criar cadeias locais de aproveitamento de biomassa. A lenha de acácia tem excelente poder calorífico; comparável ao carvalho. O eucalipto faz pellets de alta qualidade. Em vez de pagar para destruir esta biomassa, podemos criar microempresas rurais que a transformem em combustível. O mesmo trabalho de corte que hoje é despesa pública passa a gerar receita e emprego local.
Segundo, deixar parte da biomassa no terreno. Nem tudo deve sair. A matéria orgânica estilhaçada; ramos, folhas, casca; pode cobrir o solo, reter humidade, alimentar a vida microbiana. Este é o passo que a abordagem actual ignora completamente: quando se corta e queima tudo, o solo fica exposto, seca, erode. No inverno seguinte, a chuva arrasta o pouco que resta. No verão, o calor calcina a terra nua. E as invasoras voltam, porque são as únicas que conseguem recolonizar esse deserto.
Terceiro, planear a sucessão. O objectivo final não é manter acácias e eucaliptos para sempre. É usá-los como etapa de transição. Sob a sua sombra, em solo enriquecido pelo azoto que fixaram e pela matéria orgânica que acumularam, podemos introduzir gradualmente espécies nativas: sobreiros, carvalhos, medronheiros, castanheiros. A «invasora» torna-se enfermeira das espécies que queremos ver prosperar.
Isto não é teoria. É o que fazemos em projectos de regeneração há mais de uma década. E funciona.
Há uma dimensão deste problema que raramente se discute: a água.
Eucaliptos e acácias são frequentemente acusados de «secar» a paisagem. E é verdade que consomem muita água; especialmente o eucalipto, com raízes que podem descer dezenas de metros até aos lençóis freáticos. Mas a questão não é tão simples.
Uma paisagem coberta de vegetação; mesmo de «invasoras»; retém mais água do que uma paisagem nua. As copas interceptam a chuva e reduzem o impacto das gotas no solo. As raízes criam canais de infiltração. A matéria orgânica no chão funciona como esponja. Quando cortamos e queimamos tudo, perdemos estes serviços.
O que vemos depois? No inverno, cheias e deslizamentos; porque o solo nu não absorve a chuva, que escorre à superfície e arrasta terra consigo. No verão, secas mais severas; porque a água que devia ter infiltrado não está lá. E incêndios; porque a vegetação que rebenta, sempre mais invasoras, sempre mais combustível, encontra uma paisagem desidratada.
A gestão de invasoras, feita da forma actual, agrava o ciclo que pretende interromper.
Portugal gasta centenas de milhões por ano a combater incêndios e a reparar danos de cheias. Gasta dezenas de milhões a «controlar» invasoras de formas que não funcionam. Importa combustível de biomassa enquanto queima o seu próprio. Perde solo fértil todos os invernos. Perde floresta todos os verões.
Não temos dinheiro para continuar a fazer as coisas assim.
Mas temos alternativa. Podemos transformar um passivo em activo. Podemos criar emprego rural a partir de um recurso que hoje tratamos como lixo. Podemos reter carbono em vez de o libertar. Podemos proteger solos em vez de os expor. Podemos preparar a paisagem para as espécies nativas que queremos ver regressar, em vez de a deixar num ciclo perpétuo de destruição e recolonização por pioneiras.
A espécie mais invasora deste planeta somos nós. Colonizámos todos os continentes, alterámos todos os ecossistemas, modificámos o próprio clima. Se conseguimos gerir; mal ou bem; o nosso próprio impacto, certamente conseguimos encontrar forma de coexistir com umas quantas árvores que crescem depressa demais.
A guerra às invasoras é uma guerra que não podemos vencer e não precisamos de travar. O que precisamos é de uma estratégia diferente: não erradicação, mas integração. Não combate, mas gestão. Não despesa, mas investimento.
As acácias e os eucaliptos não vão desaparecer de Portugal. A questão é se vão arder sem proveito ou aquecer casas. Se vão degradar solos ou prepará-los para florestas melhores. Se vão ser o nosso problema ou parte da nossa solução.
A escolha é nossa.
Nuno Mamede Santos
Nuno Mamede Santos é o fundador da Terracrua Design e do Instituto de Planeamento Regenerativo. Com mais de vinte anos de experiência em três continentes, dedica-se ao planeamento territorial regenerativo, integrando hidrologia, ecologia e economia numa visão sistémica do território.
Publicado a 26 de Março no Expresso: https://expresso.pt/opiniao/2026-03-26-a-guerra-que-estamos-a-perder-e-como-a-podemos-ganhar-de-outra-forma-14f0f3c4