Os primeiros povoados humanos foram clareiras.
Uma abertura na floresta, o suficiente para uma horta, para algumas casas, para crianças a crescer. A floresta em volta protegia do vento, segurava a água na terra, moderava o calor do Verão e o frio do Inverno. Havia um entendimento implícito nesta relação; não escrito, mas cumprido durante gerações. A clareira existia porque a floresta a tornava possível. E a floresta continuava porque a clareira não a destruía toda.
O que define uma clareira não é o espaço vazio no centro. É o que a rodeia.
Durante muito tempo as pessoas souberam isto sem o precisar de dizer. Souberam-no da forma como se sabe o que é preciso para sobreviver; com o corpo, com o medo, com a memória dos invernos difíceis. Cada geração deixava à seguinte uma terra que ainda conseguia sustentar vida. Não por bondade; por compreensão. Destruir a floresta era destruir a clareira. As duas eram a mesma coisa.
Depois esquecemos.
Não de repente. Devagar, à medida que cada decisão individual fazia sentido e o conjunto das decisões produzia algo que ninguém tinha escolhido. Cada família precisava de mais terra. Cada geração via a floresta à volta e não via o limite. E as clareiras foram crescendo até se tocarem umas nas outras; até não haver floresta entre elas. O que ficou não era um território habitado. Era um deserto com casas.
Em Portugal, este processo tem um rosto concreto. Mais de metade do território continental está hoje em risco de desertificação. As aldeias têm mais casas fechadas do que abertas. Em 2017, sessenta e seis pessoas morreram no incêndio de Pedrógão Grande, cinquenta em Outubro. O interior não ardeu porque a natureza é perigosa. Ardeu porque estava vazio de mãos que o mantivessem; o mato crescera sem estrutura durante décadas, sem pastoreio, sem gestão, sem ninguém a interromper a continuidade do combustível. O fogo encontrou-o todo de uma vez.
Aquele Verão foi o momento em que o deserto com casas se tornou visível.
A Arquitectura Bioregional parte desta observação e faz uma pergunta diferente da que habitualmente se faz sobre territórios em crise.
Não pergunta como se atrai população. Não pergunta como se financia o desenvolvimento rural. Pergunta: o que precisa de existir à volta da clareira para que a clareira continue possível? O que tem de estar presente no território para que a vida humana dentro dele seja sustentável durante cinquenta anos?
O horizonte é deliberado. Cinquenta anos é o prazo a que os sistemas naturais respondem; o tempo que uma floresta demora a atingir maturidade, o tempo que um solo remediado demora a ganhar estrutura, o tempo que um aquífero demora a estabilizar depois de as condições de recarga serem restabelecidas. Qualquer plano com horizonte mais curto não está a planear o território; está a planear a extracção do que o território ainda tem.
Esta mudança de pergunta tem consequências que percorrem tudo o resto.
A unidade de trabalho não é o município nem a propriedade. É a bacia hidrográfica; a fronteira que a água desenhou antes de qualquer cadastro. A erosão não respeita freguesias. O fogo não pede licença para atravessar um limite de concelho. Tudo aquilo que decide a sorte de um território obedece à bacia, e nada disso obedece à linha que separa o meu do teu. Trabalhar por outra unidade é trabalhar contra a física que governa o sistema.
Dentro da bacia, a presença humana não é exterior ao problema; é parte da solução ou parte da causa, consoante a sua qualidade. Há presença que retira mais do que devolve. Há presença que ocupa sem cuidar; a casa fechada não vigia, o terreno por limpar acumula combustível, a nascente entupida deixa de correr. E há presença que habita, produz, mantém e observa; a única que deixa o território mais capaz do que o encontrou.
Uma serra sem gente não é uma serra protegida. É uma serra sem manutenção. E o mato sem manutenção é o que arde.
A Arquitectura Bioregional é o nome que damos a esta forma de pensar quando se torna consciente e sistemática; quando deixa de depender da transmissão por hábito e começa a ser transmitida também por método.
O método parte sempre da leitura do que existe; a água, o solo, a vegetação, os caminhos, a comunidade e o que ela sabe sobre o lugar onde vive. Sobre essa leitura constrói-se uma sequência de intervenções pela ordem em que cada uma cria as condições para a seguinte; a água antes do solo, o solo antes da vegetação, a vegetação antes da produção. Porque a ordem importa tanto quanto as intervenções em si. Plantar antes de resolver a água é plantar para o mato; construir antes de perceber a bacia é construir contra ela.
Desenhar é, neste sentido, um acto de memória. Não de nostalgia; de recuperação de uma inteligência que o território acumulou ao longo de séculos e que está disponível para quem souber ler. Quando se desenha uma sequência de valas de infiltração numa encosta erodida, não se inventa uma solução nova; recorda-se ao território um padrão hidrológico que ele conhecia e que foi interrompido. O designer não cria o sistema. Recorda-o.
A floresta não pede licença para voltar. Quando as condições existem, volta. O solo reconstrói-se quando pára de ser destruído. A água infiltra quando o terreno a deixa entrar. A nascente volta a correr quando alguém limpa o que a entupiu.
A clareira pode voltar a ser o que era; um lugar vivo, porque tem floresta suficiente em volta para a sustentar.
Isso é o que a Arquitectura Bioregional procura. Não a paisagem ideal. Não a comunidade perfeita. O limiar mínimo abaixo do qual um território perde a capacidade de se alimentar, abrigar, decidir por si e recompor-se depois de um golpe. Acima desse limiar há muitas formas legítimas de viver. Abaixo dele, todas acabam por ceder.