Carta aos Antepassados
Nuno Mamede Santos | Junho de 2026 | nunomsantos@regenerativo.pt
Se bem se lembram, eu quando era pequeno não sabia o que queria ser.
Sabia o que sentia. Que a terra tinha uma lógica que me escapava mas que estava lá, intacta, à espera. Lembro-me de uma encosta perto de casa, numa tarde de Agosto, em que o cheiro a erva seca me parou. Não havia mais nada. Nem água, nem pássaro, nem sombra. Só terra quente e aquele silêncio que não é paz; é ausência. Tinha talvez dez anos e não tinha nome para o que sentia. Levei décadas a perceber que era luto.
Construíram clareiras.
Não no sentido poético; no sentido físico e exacto. Aberturas na floresta, o suficiente para uma horta e algumas casas, para criar filhos e enterrar pais. A floresta em volta não era paisagem nem cenário de fundo. Era a condição. Segurava a água no solo, moderava o calor do Verão, produzia o que a clareira precisava para continuar a existir.
O que define uma clareira não é o espaço vazio no centro. É o que a rodeia.
E o que rodeava a clareira era gerido em conjunto. Não por princípio; por necessidade. Ninguém conseguia manter sozinho o que sustentava a todos. Os baldios, as águas partilhadas, as pastagens comunais, os dias de trabalho colectivo que se pagavam com trabalho colectivo. Regras locais, transmitidas sem papel, que sabiam quem podia usar o quê, quando, quanto, e quem respondia quando alguém abusava.
Esses sistemas foram desmantelados. Pela lei, pelo capital, pela vergonha de ser rural quando o moderno era ser urbano. E com eles foi-se a capacidade de manter o que dependia de ser mantido em conjunto.
Quando os commons desapareceram, as clareiras cresceram sem que a floresta crescesse com elas. Tocaram-se umas nas outras. E quando já não havia floresta entre elas, o que ficou não era território habitado.
Era deserto com casas.
Em 2017, o deserto ardeu. Sessenta e seis pessoas morreram numa tarde de Junho em Pedrógão Grande.
O interior não ardeu apenas porque estava abandonado; o abandono foi o chão. O que ardeu por cima foi eucalipto; plantado industrialmente, em encostas que nenhum agricultor sensato teria escolhido para isso, por empresas que lucram com a biomassa e que têm lobbies suficientemente fortes para manter a legislação do seu lado. O eucalipto não arde como o mato. Arde como combustível produzido para arder.
A paisagem não ficou vazia quando as pessoas partiram. Foi substituída por outra coisa; mais inflamável, mais lucrativa, gerida a partir de Lisboa por entidades que nunca ouviram o nome das aldeias onde tinham terrenos.
A resposta ao fogo falhou por razões que também não têm nada de natural. Meios concentrados longe de onde o fogo começou. Estradas que não escoavam o tráfego porque foram desenhadas para outro país. Pessoas que morreram em automóveis parados numa estrada nacional porque não havia plano de evacuação para aquele vale específico.
O abandono criou a condição. As agendas lucrativas escolheram o que o substituiu. A desorganização e a infraestrutura frágil transformaram o incêndio em catástrofe.
São três causas com actores distintos. Confundi-las numa só é um erro que favorece quem não quer ser responsabilizado.
O que estou a tentar fazer é recuperar a lógica da clareira; não a vida que viveram, os tempos são outros, mas a lógica por baixo dela. Que o território precisa de quem o mantenha. Que a manutenção é tanto trabalho como a produção. Que há coisas que só se fazem em conjunto porque a água e o fogo não respeitam estremas.
Ando pelo interior do país com essa pergunta. Ouço as pessoas mais velhas que ainda se lembram de onde estava a nascente antes de secar, o que se plantava naquela encosta antes de ninguém a plantar, que caminho seguia a água quando chovia muito. Depois do que ouço, desenho. Estruturas para a água entrar no solo em vez de escorrer. Corredores para que a fauna se mova e o fogo encontre onde parar. Instrumentos para que as comunidades que ficaram possam decidir juntas sobre o que é de todas.
É trabalho lento. Os resultados demoram anos a ver-se.
Não sei se estou a fazer bem. Tenho dúvidas sobre a velocidade, sobre se o país tem tempo, sobre se as comunidades que encontro têm ainda a massa crítica para segurar um processo que demora décadas a dar frutos.
Mas a encosta de Agosto que me ficou da infância ainda está lá. Mais seca, mais silenciosa. E eu ainda estou a tentar perceber o que ela precisa para deixar de o ser.
Talvez seja isso. Ser aquele miúdo que não sabia o que queria ser, mas que sabia o que estava a perder.
Nuno Mamede Santos | Junho de 2026 | nunomsantos@regenerativo.pt
Nuno Mamede Santos é o fundador da Terracrua Design e do Instituto de Planeamento Regenerativo. Com mais de vinte anos de experiência em três continentes, dedica-se ao planeamento territorial regenerativo, integrando hidrologia, ecologia e economia numa visão sistémica do território.