Fui convidado pelo Carlos, do Regional Rural, a propósito de um artigo que publiquei no Agroportal com este título. O pretexto era simples: está outra vez em cima da mesa a construção de novas barragens em Portugal, apresentadas como resposta à seca, e pareceu-me útil trazer para a rádio uma distinção que raramente se faz nesta discussão. Uma barragem grande resolve um problema de água num ponto do território. Não resolve o problema de água no território.
A palavra barragem esconde escalas muito diferentes. Pode designar o Alqueva ou um açude privado com cinco metros de parede. Não sou contra barragens; sou contra o hábito de aplicar a escala errada ao problema errado. Uma grande barragem organiza água para quem está a jusante e beneficia de facto uma região; mas fá-lo centralizando a solução num único ponto. E aqui está o essencial: quando se decide construir uma grande barragem, decide-se ao mesmo tempo não construir uma quantidade de pequenas intervenções, açudes, socalcos, linhas de retenção, que distribuiriam a mesma água por muito mais território. O orçamento é finito; a escolha de gastar tudo num ponto tem sempre o custo de não gastar nada nos outros.
Desertificação não é o avanço de dunas de areia. É a perda progressiva da capacidade do solo para reter água e matéria orgânica. Um solo com cobertura vegetal permanente funciona como esponja; a chuva infiltra e fica disponível durante meses. Um solo nu, batido pelo sol e pelo gado mal gerido, perde essa esponja; a chuva escorre em vez de ficar, satura o terreno em minutos e segue direita ao mar. Por isso defendo, contra a narrativa dominante, que não são as alterações climáticas que criam o deserto; é o deserto, entendido como solo sem vida e sem cobertura, que agrava as alterações climáticas. A causa está no chão, não apenas no céu.
Esta relação de causa e efeito explica um paradoxo que descrevo no artigo. A média de precipitação anual em Portugal não caiu de forma acentuada; a água útil, essa sim, diminuiu. Chove com mais violência, em picos mais curtos, e a água que cai já não encontra um solo capaz de a guardar. Um território saudável não precisa de mais chuva. Precisa de reter melhor a que já tem. Por isso proponho, em vez de uma grande barragem por bacia, milhares de pequenas retenções distribuídas pelo território, colocadas de preferência nos pontos altos das propriedades, onde depois a gravidade faz sozinha o trabalho de distribuição.
Há ainda um problema estrutural que poucos nomeiam: a falta de descontinuidade na paisagem agrícola. Olival atrás de olival, vinha atrás de vinha, sem qualquer faixa de vegetação mista entre propriedades. O efeito é o mesmo que a falta de descontinuidade produz na gestão florestal; sem intervalo, o fogo propaga-se sem travão, e o mesmo raciocínio aplica-se à água e ao vento. Em muitos países a norte dos Pirenéus mantém-se, por hábito antigo, uma faixa de floresta entre parcelas vizinhas, que pertence a todos os proprietários ao mesmo tempo e a nenhum em particular. É essa noção de bem comum, água, solo e vegetação como património partilhado, que falta recuperar aqui.
A proposta que deixo na entrevista é planear por bacia hidrográfica. O Mondego como unidade, o Zêzere como outra, o Mira como outra, porque é dentro dos limites de cada bacia que a água cai e se distribui. Levar água de uma bacia para outra por tubagem resolve o sintoma e adia a pergunta que devia ser feita primeiro: onde é que esta água deveria ter ficado retida. É este o trabalho que tenho desenvolvido com vários municípios do centro e do sul do país, planos onde se estuda primeiro onde a água cai e onde deveria permanecer, para só depois decidir onde activar zonas agrícolas e florestais.
Uma nota à margem. Ao longo da conversa, o Carlos trata-me por engenheiro. Não sou; nunca tirei esse curso. Há pessoas que insistem no título mesmo depois de corrigidas, e já deixei de insistir eu também. Suspeito que lhes dá algum conforto associar estas ideias a um diploma, como se precisassem dessa credencial para lhes dar peso. Vinte anos a desenhar água e solo no terreno valem mais do que qualquer diploma, mas percebo a necessidade alheia de arrumar as pessoas em categorias reconhecíveis.
O texto que se segue reconstitui a conversa com o Carlos, na Regional Rural. Não é uma transcrição literal; a gravação tinha trechos pouco claros e hesitações próprias da fala ao vivo, e optei por limpar e reorganizar algumas passagens para que se lessem com a clareza que a rádio, pela sua natureza, nem sempre permite. As ideias e a ordem dos argumentos correspondem ao que foi dito; a formulação exacta de algumas frases, não.
Carlos: Bom dia. Hoje convidei o Nuno Mamede por causa de um artigo que publicou no Agroportal, com este título: “Barragens não resolvem desertificação, resolvem sim a estatística.” Convidei-o porque está em cima da mesa a construção de novas barragens em Portugal para resolver o problema da seca, e pareceu-me interessante esta outra perspectiva. Nuno é fundador da Terra Crua Design e do Instituto do Planeamento Regenerativo. Nuno, bom dia. O que o levou a escrever este artigo?
Nuno Mamede: Bom dia, Carlos. Obrigado pelo convite. O que me preocupa nas barragens é o afunilar do pensamento criativo para soluções únicas.
Carlos: Este artigo é contra a construção de novas barragens?
Nuno Mamede: Diria que é um nim. Não somos contra barragens; quando falamos de barragens podemos estar a falar do Alqueva ou de uma barragem privada com uma parede de cinco metros. Ser contra barragens seria redutor, porque há barragens com funções muito diversas, em escalas apropriadas. Somos contra barragens cuja escala já escapa à escala humana.
Carlos: E o que está em causa, no fundo, com este artigo?
Nuno Mamede: Está em causa o nosso futuro. As barragens não são um problema; muitas vezes são solução para algo. As que servem de rega aos agricultores resolvem problemas reais de uma região e beneficiam pessoas, embora essas pessoas paguem a água. Mas deixam muitas outras de fora. A lógica das barragens tende a centralizar soluções em determinadas áreas. É um lugar comum, mas verdadeiro, dizer que a forma mais barata de armazenar água é no solo; e o nosso país, por gestão às vezes mal feita do coberto vegetal, perdeu grande parte dessa capacidade natural. Vamos então para as barragens, e as barragens grandes gastam orçamentos grandes e tornam-se a solução única para um território inteiro, seja no Algarve, seja em Portugal central. Quando se decide fazer uma barragem, decide-se também não fazer uma série de pequenas coisas, açudes, benefícios de ecossistema, pequenas reservas para a agricultura. Aposta-se tudo na grande obra, e essa obra resolve alguns problemas, mas não resolve a falta de água em muitas zonas do país.
Carlos: Esta desertificação de que fala é concretamente o quê?
Nuno Mamede: É uma palavra elaborada para uma coisa simples: o território a tornar-se deserto. Há hoje a tendência de apontar o problema para o céu, para as alterações climáticas, porque essa narrativa nos é mais confortável. Mas o problema está muitas vezes cá em baixo. Nós acreditamos que são os desertos que provocam alterações climáticas, e não o contrário. Todas as soluções passam por uma boa gestão do solo, da matéria orgânica e da água; e isto não significa apenas usar sistemas de rega mais eficientes, significa distribuir a água pelo território. A água cai e devemos pensar como atrasar a sua chegada ao mar. Isso faz-se no terreno, com técnicas aplicadas dentro e fora das zonas produtivas. Falta estrutura nas próprias quintas. Olhando para o Alqueva, há coisas boas a acontecer; a barragem beneficia quem usa a água, e todos consumimos produtos que vêm de lá. Mas se olharmos para uma zona como os Barros Pretos, vemos talhão atrás de talhão, sem descontinuidade nenhuma, o mesmo erro que se costuma apontar na gestão florestal, onde a descontinuidade ajuda a travar o fogo. Na agricultura falta o mesmo: um corredor de floresta mista entre parcelas, nem que fossem vinte metros, como se vê a norte dos Pirenéus, onde os proprietários vizinhos deixam essa faixa entre as suas terras. Talvez por cultura dos comuns; a água, o solo e a vegetação como pertença de todos. O território não pode ser propriedade privada em monocultura em toda a sua extensão; é preciso reservar zonas de biodiversidade, de armazenamento de água, de banco de sementes.
Carlos: Há quem diga que não falta água em Portugal, que ela está mal distribuída e se perde no mar; e que a barragem serve precisamente para a reter até haver escassez. No seu artigo fala de picos de cheia mais rápidos e violentos, seguidos de longos períodos sem água na paisagem: mais chuva anual, menos água útil. O que quer dizer com isto?
Nuno Mamede: Que a média de precipitação anda sempre mais ou menos a bater o mesmo, mas o território perdeu quase toda a capacidade de infiltrar essa água. Essa capacidade vem do coberto vegetal permanente ou da matéria orgânica no solo, ou de ambos; um ajuda o outro, e juntos regulam tanto as cheias como a seca. As barragens são a segunda melhor opção, e funcionam na regulação de cheias; quem sabe o que teria acontecido este ano em Portugal central sem elas. Mas o território a montante das barragens está, na sua maioria, mal gerido; pouca matéria orgânica, pouco coberto vegetal. Quando chove, a água escorre assim que o solo satura, e segue direita às linhas de água. Temos chuva, temos um território que não a segura, e barragens que não seguram tudo. Propomos uma lógica mais distribuída: por cada hectare, dois, três, dez pontos para reter água, de preferência nos locais mais altos da propriedade. É planear com a água, não contra ela; planear para as dificuldades, não para o cenário ideal. As barragens continuam a ter lugar, mas o território precisa sobretudo de milhares de pequenas retenções por cada cem hectares, capazes de travar a água antes que ela saia depressa demais do sistema. Perdemos os corredores florestais que existiam há quarenta ou cinquenta anos nas cumeadas das serras; era essa floresta, e a galeria ripícola junto às linhas de água, que dava estabilidade aos ventos, à chuva, ao calor. Hoje sente-se o vento a bater à altura do solo em quase todo o território nacional; tornou-se frequente, mas não é normal. A vegetação fazia o vento subir vinte, trinta metros acima do solo. Ontem choveu no Alentejo, coisa rara em Junho; hoje já está tudo seco outra vez, porque terão caído cinco milímetros, quantidade que num território saudável seria suficiente para infiltrar e alimentar a vida do solo, hoje sabida mais determinante para a fertilidade do que o azoto, o fósforo ou o potássio. É a vida no solo que torna os nutrientes assimiláveis. O território que queremos para Portugal tem produção agrícola com escala e barragens que organizam água para quem dela beneficia, mas tem também floresta nos pontos altos e baixos, corredores, zonas de biodiversidade, de caça, de tudo. Falta coragem política, sem dúvida; mas falta sobretudo o mecanismo que reúna estas iniciativas e redesenhe o país por bacias hidrográficas. O Mondego como unidade, o Zêzere como outra, o Mira como outra, porque é dentro de cada bacia que a água cai e se distribui. Resolver a falta de água em Odemira com água vinda do Guadiana resolve o sintoma; a engenharia hoje resolve tudo com tubos e cabos, e às vezes com razão, mas essa lógica evita a pergunta de fundo. É preciso olhar para cada bacia e decidir onde ficam as zonas de equilíbrio ecológico, de caça, de lazer, de retenção de carbono. Sem economia não há ecologia; sem ecologia não há economia. Já trabalhamos com vários municípios do centro e do sul nesse sentido: planos onde se estuda primeiro onde a água cai e onde deveria ficar, para só depois decidir onde activar zonas agrícolas e florestais. Falta aqui, se calhar, uma dose de senso comum. Portugal precisa de revisitar o território, de o redesenhar, porque quem trabalha no campo sabe bem como é cada vez mais difícil tirar rentabilidade e segurar água e solo no terreno. Muita gente na zona central do país enfrenta ainda dificuldades por causa do minifúndio e dos acessos que ele impede. É preciso repensar cada região com quem a trabalha, os operadores, os produtores.
Carlos: Obrigado pela partilha, Nuno; ficamos por aqui, mas o tema dava para muito mais tempo de conversa.
Nuno Mamede: Obrigado, bom dia.
Entrevista em directo para a rádio Regional do Centro no dia 26 de Junho de 2026