As alterações climáticas não estão no céu. Estão na paisagem.
Durante demasiado tempo habituámo-nos a discutir as alterações climáticas como se fossem um fenómeno exclusivamente atmosférico. Falamos de gases, temperaturas médias globais, concentrações de carbono e modelos climáticos. Tudo isso é importante. Mas existe uma dimensão da discussão que permanece frequentemente ausente: a paisagem.
A forma como organizamos o território influencia directamente a forma como a água circula, como os solos funcionam, como a vegetação cresce, como o carbono é armazenado e como os ecossistemas respondem aos extremos climáticos. Por outras palavras, uma parte significativa daquilo que hoje identificamos como alterações climáticas é também o resultado de alterações profundas na estrutura da paisagem.
Ao longo do século XX, a agricultura e a floresta foram progressivamente simplificadas. Em muitas regiões, sistemas agrícolas diversificados deram lugar a extensas monoculturas; as sebes desapareceram; as linhas de água foram rectificadas; as zonas húmidas foram drenadas; a vegetação espontânea foi removida. O mesmo aconteceu na floresta, onde paisagens heterogéneas foram substituídas por vastas manchas contínuas de espécies de crescimento rápido, muitas vezes fora do seu contexto ecológico original. Esta transformação trouxe ganhos produtivos de curto prazo, mas teve custos ecológicos que só hoje se tornam plenamente visíveis.
A bacia hidrográfica como esponja
Uma bacia hidrográfica saudável funciona como uma esponja. Quando chove, parte da água infiltra-se no solo; outra parte fica retida na vegetação, na matéria orgânica e nos aquíferos; e essa água move-se lentamente através do território, alimentando linhas de água, nascentes e ribeiros durante meses ou mesmo anos depois da chuva ter caído. Quando a paisagem perde esta estrutura, o mecanismo pára de funcionar: os solos degradam-se e perdem matéria orgânica, a infiltração diminui, a água escorre mais depressa para os rios e os aquíferos deixam de ser recarregados.
É este mecanismo, e não a quantidade de chuva por si só, que explica o paradoxo que hoje se observa em várias regiões do país: excesso de água no Inverno e falta de água no Verão. As cheias tornam-se mais frequentes porque a água já não encontra capacidade de absorção no território; as secas tornam-se mais severas porque essa mesma água desaparece rapidamente da paisagem em vez de ficar retida para os meses secos.
O mesmo raciocínio aplica-se ao solo. Um solo vivo é uma estrutura complexa, formada ao longo de centenas ou milhares de anos pela interacção entre raízes, fungos, bactérias, matéria orgânica e fauna subterrânea. Quando a cobertura vegetal desaparece ou a mobilização excessiva destrói essa estrutura, a erosão passa a actuar mais depressa do que a regeneração; em poucas décadas perde-se o que a natureza levou séculos a construir.
O ciclo do carbono segue a mesma lógica. Grande parte do carbono terrestre está armazenado nos solos, na vegetação e nos ecossistemas naturais; quando degradamos esses sistemas libertamos carbono para a atmosfera, e quando os restauramos aumentamos de novo a capacidade de armazenamento. Discutir carbono sem discutir solos, florestas, água e biodiversidade é, por isso, olhar apenas para uma parte da equação.
O que os incêndios revelam sobre o desenho do território
A biodiversidade funciona pela mesma via causal. Ecossistemas diversos suportam melhor secas, pragas e extremos climáticos porque distribuem o risco por várias espécies e estratégias; sistemas simplificados, dependentes de poucas espécies, transformam qualquer perturbação num impacto severo, porque não há alternativa biológica que absorva o choque.
Os grandes incêndios rurais ilustram bem este ponto. O fogo sempre fez parte dos ecossistemas mediterrânicos; o que mudou não foi a existência de fogo, mas a paisagem que o recebe. Os incêndios de 2017 no centro do país, entre eles a tragédia de Pedrógão Grande, aconteceram numa paisagem moldada por décadas de abandono rural, redução do pastoreio e expansão de grandes manchas contínuas de eucalipto e pinhal, exactamente as condições que produzem incêndios de comportamento extremo. Não foi, no essencial, um problema de meios de combate. Foi um problema de desenho territorial, décadas antes de a primeira faísca acontecer.
A erosão, a desertificação, a perda de fertilidade e a escassez hídrica são fenómenos diferentes na aparência mas partilham frequentemente a mesma causa estrutural: a degradação progressiva dos processos ecológicos que sustentam a paisagem.
Reorganizar o território, não só regulá-lo
Dificilmente resolveremos estes desafios apenas com tecnologia, financiamento ou regulamentação; nenhuma destas ferramentas substitui a necessidade de reorganizar o território. Isso significa pensar em bacias hidrográficas e não apenas em parcelas individuais, recuperar zonas húmidas e galerias ripícolas, e integrar agricultura, floresta e conservação em vez de as tratar como actividades incompatíveis.
A agroecologia, a agricultura regenerativa, os sistemas agroflorestais e a gestão holística do pastoreio demonstram, em casos já documentados em Portugal e no estrangeiro, que é possível produzir alimentos e rendimento económico enquanto se restauram os processos ecológicos que sustentam essa mesma produção. Não se trata de abandonar a produção; trata-se de produzir de forma compatível com o funcionamento da biosfera, porque uma economia depende de solos férteis, água disponível e paisagens estáveis tanto quanto qualquer sector produtivo depende das suas matérias-primas.
As alterações climáticas são reais, mas grande parte da resposta não está na atmosfera. Está na forma como desenhamos os campos, as florestas, os sistemas agrícolas e as bacias hidrográficas. A paisagem não é o cenário onde a vida acontece; é o sistema que decide se há água no Verão, se há solo daqui a cinquenta anos e se o próximo incêndio se comporta como sempre se comportou ou como os de 2017. Enfrentar a próxima década vai exigir que deixemos de olhar apenas para o céu e voltemos a olhar para a terra.
Nuno Mamede Santos é o fundador da Terracrua Design e do Instituto de Planeamento Regenerativo. Com mais de vinte anos de experiência em três continentes, dedica-se ao planeamento territorial regenerativo, integrando hidrologia, ecologia e economia numa visão sistémica do território.
Publicado a 14 de Julho de 2026 no Observador: https://observador.pt/opiniao/as-alteracoes-climaticas-nao-estao-no-ceu-estao-na-paisagem/