O próximo investimento climático não é uma barragem. É uma sombra.
Nos últimos anos, Portugal habituou-se a discutir as alterações climáticas através de grandes números. Fala-se de milhões de euros para combater a seca, de novas barragens, de transvases, de centrais de dessalinização, de redes de distribuição e de infraestruturas cada vez mais complexas para responder a um problema cada vez mais urgente.
São investimentos importantes. Alguns serão inevitáveis. Mas talvez estejamos a ignorar uma pergunta simples:
Quanto conforto climático conseguimos gerar por cada euro investido?
A resposta pode ser desconfortável para quem olha para o território apenas através da lente da engenharia pesada. Porque muitas vezes a intervenção mais eficaz não é a mais cara. É a mais inteligente.
Uma nascente recuperada. Um conjunto de árvores maduras. Uma linha de água renaturalizada. Um pequeno espelho de água integrado na paisagem. Um parque de merendas transformado num espaço fresco e habitável durante os meses de Verão.
São soluções aparentemente modestas. Mas os seus efeitos acumulados podem ser extraordinários.
Basta caminhar por qualquer cidade portuguesa num dia de calor extremo. Ao atravessar uma praça totalmente exposta ao sol, a temperatura parece esmagadora. Poucos metros depois, ao entrar numa rua arborizada ou junto a uma fonte antiga, o corpo percebe imediatamente a diferença. O termómetro pode não ter descido muito, mas a sensação térmica mudou radicalmente.
A sombra continua a ser uma das tecnologias climáticas mais eficientes alguma vez inventadas. E tem uma característica curiosa: foi desenvolvida pela natureza há centenas de milhões de anos.
Durante séculos, as comunidades humanas compreenderam isto intuitivamente. As aldeias cresciam em torno de nascentes. Os largos eram sombreados por árvores de grande porte. Os lavadouros, fontes e tanques serviam simultaneamente funções práticas e sociais. A água não era apenas um recurso; era um elemento estruturante da vida comunitária.
Entretanto, o desenvolvimento moderno habituou-nos a pensar que todos os problemas exigem soluções novas, complexas e tecnológicas. Muitas vezes esquecemo-nos de olhar para aquilo que já existe.
Em todo o país existem fontes abandonadas, açudes esquecidos, linhas de água degradadas, parques de merendas subutilizados e pequenos espaços públicos que perderam a sua função original. Em muitos casos, estes locais possuem todas as condições para voltar a desempenhar um papel relevante na adaptação climática das comunidades.
Não estamos a falar de criar praias fluviais em todo o lado. Nem de transformar cada aldeia num destino turístico.
Estamos a falar de recuperar a capacidade dos territórios oferecerem conforto climático às pessoas.
Num país onde os dias acima dos 40 graus se tornam cada vez mais frequentes, esta capacidade deixa de ser um luxo para passar a ser uma necessidade.
A questão é particularmente relevante no interior do país. Ao contrário do que muitas vezes se pensa, as aldeias não competem com as cidades nesta matéria. Pelo contrário. Tanto uma pequena aldeia alentejana como um bairro de Lisboa enfrentam exactamente o mesmo desafio: como criar espaços públicos habitáveis durante os meses mais quentes do ano.
A diferença é que muitos territórios rurais ainda conservam património natural e hidráulico que pode ser valorizado com investimentos relativamente reduzidos.
Quando uma intervenção consegue simultaneamente gerar sombra, reduzir a temperatura sentida, valorizar a paisagem, aumentar a biodiversidade, criar espaços de encontro para a população local e ainda reforçar a atractividade turística, talvez devamos olhar para ela como uma verdadeira infraestrutura climática.
E talvez seja aqui que a discussão sobre adaptação climática precise de evoluir. Durante demasiado tempo associámos infraestrutura a betão, máquinas e grandes obras públicas.
Mas uma árvore também é uma infraestrutura. Uma galeria ripícola também é uma infraestrutura. Uma nascente recuperada também é uma infraestrutura.
E um espaço público capaz de oferecer frescura durante uma onda de calor pode ser tão importante para a qualidade de vida das pessoas como qualquer equipamento municipal.
Portugal continuará a precisar de barragens. Continuará a precisar de investimento tecnológico. Continuará a precisar de planeamento hídrico à escala nacional.
Mas talvez esteja na altura de reconhecer que algumas das soluções mais eficazes para enfrentar o clima do futuro já estão à nossa volta.
Muitas vezes esquecidas. Muitas vezes abandonadas.
À espera de serem vistas não como relíquias do passado, mas como infraestruturas do futuro. Porque, em muitos casos, o próximo investimento climático não será uma barragem.
Será uma sombra.
Nuno Mamede Santos é o fundador da Terracrua Design e do Instituto de Planeamento Regenerativo. Com mais de vinte anos de experiência em três continentes, dedica-se ao planeamento territorial regenerativo, integrando hidrologia, ecologia e economia numa visão sistémica do território.
Publicado a 19 de Julho de 2026 no Público: https://www.publico.pt/2026/07/19/azul/opiniao/proximo-investimento-climatico-nao-barragem-sombra-2181897