Quando estão 43 graus, para onde vamos?
A Organização Mundial da Saúde tem alertado que a Europa poderá enfrentar cada vez mais episódios de calor extremo com consequências graves para a saúde pública. Portugal está entre os países mais expostos, e as previsões apontam para temperaturas altas em várias regiões do país.
Perante estes números, a discussão pública tende a concentrar-se nos alertas meteorológicos, nos riscos para a população mais vulnerável e nas recomendações de comportamento. Tudo isso é importante. Mas talvez estejamos a ignorar uma questão mais fundamental:
Como é que os nossos territórios respondem ao calor?
Porque os 43 graus não são apenas uma temperatura registada numa estação meteorológica. São uma força física que actua sobre o solo, a vegetação, a água, os animais e as pessoas.
Num dia de muito calor, um solo nu pode facilmente ultrapassar os 60 ou 70 graus à superfície. A diferença entre um terreno exposto e um terreno coberto por vegetação pode chegar a dezenas de graus. E essa diferença tem consequências.
É ela que acelera a evaporação da água do solo. É ela que reduz a actividade biológica responsável pela fertilidade. É ela que transforma paisagens inteiras em superfícies cada vez mais quentes e secas.
Por outro lado, um solo protegido por vegetação, coberto por matéria orgânica ou sombreado por árvores comporta-se de forma completamente diferente. Mantém mais humidade, aquece menos e cria condições para que a vida continue a desempenhar a sua função reguladora.
Não estamos perante uma questão ideológica. Estamos perante física básica.
O mesmo acontece com a água.
Uma linha de água exposta ao sol directo aquece rapidamente durante os meses de Verão. A temperatura sobe, o oxigénio dissolvido diminui, os ecossistemas degradam-se e a própria experiência humana daquele espaço torna-se menos agradável.
Já uma linha de água protegida por árvores mantém-se fresca mesmo durante períodos de calor intenso. Quem já caminhou junto a uma ribeira arborizada em pleno verão sabe exactamente do que falo. Não é necessário consultar estudos científicos para sentir a diferença. O corpo percebe-a de imediato.
A sombra continua a ser uma das tecnologias climáticas mais eficientes alguma vez inventadas.
E é precisamente aqui que a discussão sobre adaptação climática deveria tornar-se mais prática.
Durante anos habituámo-nos a pensar a água apenas como um recurso para abastecimento, rega ou produção de energia. Mas a água possui outra função essencial: ajuda a regular a temperatura da paisagem e a criar espaços habitáveis para as pessoas.
Talvez por isso não seja coincidência que, em todos os territórios, as populações tenham historicamente procurado viver, conviver e descansar junto à água.
Fontes, lavadouros, ribeiras, nascentes. tanques e sombras de árvores: durante séculos estes locais funcionaram como verdadeiros refúgios climáticos, muito antes de existir esta expressão.
E talvez seja altura de recuperarmos essa sabedoria.
Quando observamos o sucesso crescente de pequenos espaços de água recuperados no interior do país — sejam eles zonas balneares, fontes valorizadas ou pequenas praias fluviais integradas na paisagem — percebemos que não estamos apenas perante meros equipamentos de lazer.
Estamos perante infraestruturas de adaptação climática. Lugares onde as pessoas encontram frescura durante os dias mais quentes. Lugares onde a água, a vegetação e a sombra trabalham em conjunto para criar condições que o território envolvente já não consegue oferecer. Lugares onde uma família pode passar uma tarde de Agosto sem precisar de se refugiar num centro comercial ou atrás de uma unidade de ar condicionado.
Talvez seja precisamente por isso que estes espaços se tornem cada vez mais procurados. Porque respondem a uma necessidade real. Não a uma moda. Não a uma tendência turística. Mas a uma necessidade humana básica: encontrar conforto num clima cada vez mais exigente.
E estes espaços também nos mostram que precisamos de arborizar novamente as nossas aldeias, vilas e cidades. A arquitectura paisagista funcional pode resolver muitos dos problemas de temperatura nas áreas urbanizadas.
As ondas de calor vão continuar a repetir-se. Provavelmente com maior frequência e maior intensidade. A verdadeira questão não é como reagir a cada alerta vermelho ou a cada aviso da Protecção Civil.
A verdadeira questão é outra.
Quando os 43 graus chegam, para onde vamos?
Vamos para territórios onde a água continua presente na paisagem. Vamos para lugares onde as árvores ainda produzem sombra. Vamos para espaços que foram desenhados para acolher pessoas e não apenas para serem atravessados. Vamos para os refúgios climáticos que tivermos sido capazes de preservar, recuperar ou criar.
Porque a adaptação às alterações climáticas não começa no dia em que chega a onda de calor. Começa muitos anos antes, quando decidimos que a água, a vegetação e a sombra não são apenas elementos decorativos da paisagem.
São infraestruturas essenciais para o futuro de Portugal.
Nuno Mamede Santos é o fundador da Terracrua Design e do Instituto de Planeamento Regenerativo. Com mais de vinte anos de experiência em três continentes, dedica-se ao planeamento territorial regenerativo, integrando hidrologia, ecologia e economia numa visão sistémica do território.
Publicado na versão impressa da revista Voz do Campo – Agosto de 2026: