Sobre a conversa que tive com o ECCOS
Saiu esta semana o episódio que gravei com o ECCOS, para a série “Sonhadores | Amantes da Natureza”. Não é fácil falar de vinte anos de trabalho em pouco mais de uma hora; mas ficou ali uma boa parte do que penso sobre território, água e a forma como desenhamos o nosso lugar no mundo.
Falámos primeiro de Ferraria de São João, uma aldeia que ardeu e que, depois do incêndio, tomou uma decisão que me tocou particularmente: em vez de replantar os eucaliptos que restavam, a comunidade decidiu arrancá-los e plantar carvalhos. Foi esta decisão que me levou a envolver-me com a aldeia e, mais tarde, a desenhar uma visão de futuro para aquela paisagem.
Não é uma decisão pequena, apesar de parecer simples. Um incêndio não acontece por acaso; resulta sempre de uma combinação de factores, e continuar a plantar as mesmas espécies, com a mesma continuidade de combustível, é manter essa combinação intacta. Diversificar as espécies, quebrar a continuidade da vegetação, cuidar da capacidade do solo de reter água, são formas de mudar as causas do problema, não apenas de reparar o estrago depois de acontecer. É por isso que digo, sempre que posso, que regenerar não é voltar atrás; é aprender a fazer diferente daquilo que já não funciona.
Falámos também de keyline design, um tema que atravessa grande parte do meu trabalho desde que comecei. A ideia vem de P. A. Yeomans e é simples de enunciar: a água concentra-se nos vales e escasseia nas cumeadas, por gravidade. O traçado keyline não é uma curva de nível; tem um pequeno desvio que empurra a água lateralmente, para as zonas mais altas, em vez de a deixar escorrer sempre para baixo. Não há nada de místico nisto, é física aplicada ao terreno; mas o efeito, ao longo dos anos, é um solo mais equilibrado em toda a encosta, com mais água onde antes faltava.
A parte da conversa que mais me apeteceu prolongar foi sobre biorregiões. Defendo há algum tempo que devíamos olhar para Portugal não apenas pelas fronteiras administrativas que desenhámos nós, mas pelas bacias hidrográficas que a geografia já desenhou primeiro; o Douro, o Zêzere, o Tejo. Um rio não pára num limite de concelho; talvez o nosso planeamento também não devesse parar aí. É uma mudança de perspectiva simples, mas que raramente aparece nas conversas sobre ordenamento do território em Portugal.
Falei ainda dos comuns, essa figura antiga de terrenos e recursos que não pertencem propriamente a ninguém e que, por isso mesmo, são geridos por todos. No norte da Europa ainda se encontram sebes e faixas de vegetação entre parcelas agrícolas que sobrevivem exactamente por esta razão. Em Portugal esta ideia perdeu-se um pouco ao longo do tempo, e acho que vale a pena recuperá-la; não por nostalgia, mas porque há recursos que só funcionam quando aprendemos a cuidar deles em conjunto.
Termino a conversa com uma ideia que continua a orientar o meu trabalho: talvez o planeta não precise de ser salvo; talvez sejamos nós que precisemos de reaprender a viver com ele.
Deixo aqui o episódio completo, disponível no canal do ECCOS no YouTube. Obrigado ao ECCOS pelo convite e pela conversa.