O solo primeiro; as contas depois
Há um mês, sentei-me a conversar com a Alexandra Costa para o podcast Pegada Positiva, da Greenocean. Saiu de lá uma frase que resume vinte e dois anos de trabalho de campo melhor do que qualquer relatório técnico que eu alguma vez tenha escrito: a neutralidade carbónica começa no solo; tudo o resto são contas por acertar.
Digo isto porque o debate público sobre carbono ficou preso num vocabulário de mercado. Fala-se de emissões, de compensações, de créditos voluntários, como se o problema se resolvesse trocando números entre balanços. Um solo vivo, rico em matéria orgânica, faz um trabalho que nenhuma folha de cálculo faz sozinha; amortece secas, absorve cheias, reduz o risco de incêndio, porque retém água e mantém a vegetação hidratada durante mais tempo. Quando falamos de neutralidade carbónica sem falar da saúde do solo, estamos a discutir o sintoma e a ignorar a causa.
Uma das ideias que mais gosto de trabalhar, e que voltei a explicar naquela conversa, é o que chamo o efeito clareira. Ao longo da história, a agricultura nasceu sempre em clareiras abertas dentro de floresta; escolhiam-se esses lugares por terem bons acessos, água potável e solo fértil. O que definia essas clareiras nunca foi o espaço aberto em si; era o que as rodeava. A floresta à volta protegia do vento, regulava a temperatura, segurava a água no lençol freático. Perdemos isso quando começámos a tratar campo aberto e floresta como categorias opostas, uma produtiva e outra decorativa. O planeamento regenerativo, tal como o pratico, tenta recriar essa relação; não como nostalgia, mas como engenharia de sistemas, com corredores de floresta de protecção a intercalar com zonas produtivas, cada um a cumprir uma função que a outra parte sozinha não cumpriria.
A sequência que uso é sempre a mesma, quer esteja a desenhar um terreno de um hectare, quer esteja a trabalhar numa bacia hidrográfica de trezentos e cinquenta mil hectares. Começa-se pela topografia; lê-se o relevo antes de decidir fosse o que fosse. Definem-se depois as zonas de floresta de protecção, porque são elas que condicionam tudo o resto. Só a seguir vêm os pontos de água, os acessos que os ligam, as parcelas produtivas, e por fim as infra-estruturas. Inverter esta ordem é a razão mais comum pela qual um projecto de regeneração território falha ao fim de poucos anos; não por falta de boa vontade, mas porque a água e os acessos foram decididos depois das culturas, quando deveriam ter sido decididos antes.
Há uma frase que costumo repetir aos meus estagiários e que também disse à Alexandra: já se disseram todas as coisas que era preciso dizer; agora só falta fazer. Portugal tem hoje um levantamento LiDAR que cobre cerca de noventa por cento do território nacional, com dados abertos, publicados pelo governo, e ainda largamente por explorar. Temos a informação para desenhar zonas de sequestro de carbono à semelhança das ZIF, escolhidas com critério, sem interesse agrícola directo, com apoio a quem lá tem propriedade. O que falta não é conhecimento; é decisão.
É esse também o raciocínio por trás do trabalho que a Semina Futuro está a fazer no Alto Mira, em regime pro bono, para toda a bacia do Mira. Tratamos a bacia hidrográfica como a verdadeira unidade de planeamento, não a freguesia nem o concelho, porque é a bacia que determina onde a água nasce, para onde escorre e quem depende dela. E responsabilizamos quem lá vive pela gestão dessa água; se alguma coisa correr mal, não há um ministério distante a quem apontar o dedo.
Escolhi o Alto Mira, entre todos os territórios onde já trabalhei, precisamente porque ainda foram cometidos poucos erros ali. Há mais espaço para desenhar bem do que para corrigir o que já está torto. E é talvez essa a ideia mais simples de toda a conversa com a Alexandra: antes de reparar o que se estragou, vale a pena desenhar bem o que ainda não foi tocado.
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