O que é um Refúgio Climático?
Uma árvore centenária é uma infraestrutura. Uma galeria ripícola é uma infraestrutura. Uma nascente recuperada é uma infraestrutura. Durante décadas habituámo-nos a pensar infraestrutura como sinónimo de estrada, viaduto ou equipamento público; mas o calor extremo está a obrigar-nos a alargar essa definição, e a fazê-lo depressa.
Os dias acima dos 40 graus deixaram de ser excepção em muitas regiões do país. As ondas de calor prolongam-se por semanas; os incêndios tornaram-se presença fixa do Verão português; e permanecer ao ar livre nas horas centrais do dia passou a ser, em muitos lugares, um exercício de resistência física. Perante isto, a pergunta que qualquer autarquia devia estar a fazer é simples: onde é que a sua população se pode refugiar do calor sem fechar a porta de casa e ligar o ar condicionado?
Nem todos têm ar condicionado. Nem todos querem, ou podem, passar semanas fechados dentro de um edifício. E uma sociedade que depende exclusivamente de espaços privados para enfrentar um problema colectivo é uma sociedade mal preparada. É por isso que vale a pena recuperar um conceito ainda pouco discutido em Portugal: o refúgio climático, um espaço capaz de oferecer conforto térmico mensuravelmente superior ao do território que o rodeia.
Uma técnica que Portugal já dominava
Os portugueses conheceram estes espaços muito antes de existirem sistemas de climatização. As aldeias nasciam junto a nascentes porque a água próxima moderava a temperatura do ar; os largos eram sombreados por árvores de grande porte porque a sombra de uma copa madura pode reduzir a temperatura sentida em vários graus face a uma rua exposta; os lavadouros funcionavam como pontos de encontro social precisamente porque eram, também, os pontos mais frescos da povoação. Isto não era estética. Era engenharia territorial informal, afinada ao longo de séculos por tentativa e erro.
Perdemos grande parte dessa capacidade nas últimas décadas, e perdemo-la por razões concretas, não por acidente. Canalizámos ribeiras em betão, o que elimina o sombreamento das margens e suprime o arrefecimento evaporativo que a água corrente proporciona ao ar envolvente. Impermeabilizámos solos com asfalto e cimento, superfícies que absorvem radiação solar durante o dia e a libertam lentamente à noite, impedindo o arrefecimento nocturno que um solo permeável e vegetado permite através da evapotranspiração. Reduzimos áreas verdes urbanas, e cada árvore removida representa não apenas sombra perdida mas um ponto a menos de evapotranspiração, o processo pelo qual a água libertada pelas folhas consome energia térmica do ar e baixa a temperatura local de forma mensurável, não apenas sensorial.
O resultado está à vista em qualquer praça de vila portuguesa recentemente requalificada com pedra clara e sem uma única árvore de grande porte: um espaço tecnicamente novo e termicamente inabitável em Julho. A diferença entre essa praça e uma praça arborizada com água próxima não é cosmética; estudos de microclima urbano em cidades do sul da Europa registam diferenças de cinco a oito graus entre uma superfície mineral exposta ao sol e uma zona sombreada por copa densa junto a água corrente. Não é uma diferença de conforto marginal. É a diferença entre um espaço público utilizável às três da tarde de Agosto e um espaço público que a população evita durante três meses por ano.
Esta perda de espaço público utilizável tem um custo que raramente entra nas contas municipais. Uma praça que só funciona de Outubro a Maio é uma praça meio amortizada; o investimento feito na sua requalificação rende metade do que renderia se o desenho tivesse considerado sombra e água como parte da função, não como decoração posterior. O mesmo raciocínio aplica-se a comércio local, a esplanadas, a eventos de Verão que hoje se cancelam ou se transferem para interiores climatizados, com o custo energético que isso implica.
Um caso ilustrativo: o lavadouro que ninguém via
Em muitas vilas do interior existe um padrão que se repete com pequenas variações: um lavadouro público, construído junto a uma nascente ou a uma linha de água, abandonado desde que a máquina de lavar roupa se generalizou nos anos oitenta e noventa. Estruturalmente, estes lavadouros continuam intactos na maior parte dos casos, porque foram construídos em pedra e pensados para durar séculos, não décadas. O que falta não é reconstrução. É manutenção da linha de água a montante, poda ou plantação de arvoredo em redor, e um banco à sombra.
O custo de recuperar um destes espaços costuma ser uma fracção do custo de criar um espaço novo com o mesmo efeito térmico, porque a água e, em muitos casos, parte do arvoredo já lá estão; falta apenas o reconhecimento de que aquele lugar tem uma função que o país voltou a precisar. Este é o tipo de intervenção que qualquer câmara municipal pode fazer com orçamento modesto e sem depender de fundos europeus de grande escala, e é também o tipo de intervenção que raramente aparece nos planos de adaptação climática, porque não tem a visibilidade de uma ciclovia ou de um parque novo.
O que já existe e está por aproveitar
A parte animadora deste problema é que grande parte da solução não precisa de ser construída de raiz. Portugal tem fontes esquecidas, açudes abandonados, levadas e valas de rega em desuso, parques de merendas subaproveitados e ribeiras degradadas mas recuperáveis, muitas vezes a poucos metros do centro de uma vila. A serra de Monchique, o Alentejo interior, o interior transmontano, têm dezenas de exemplos de fontanários e lavadouros que só precisam de manutenção e de uma leitura correcta do seu potencial para voltarem a funcionar como pontos frescos da comunidade.
A água está lá. As árvores, onde não foram cortadas, estão lá. Falta o passo seguinte: reconhecer estes lugares como património funcional, não apenas como património histórico, e integrá-los numa estratégia municipal de adaptação ao calor.
O que uma autarquia devia fazer primeiro
Antes de qualquer plano de adaptação climática com árvores novas e pavimento reflector, uma câmara municipal devia mandar fazer um inventário simples: onde estão as nascentes, ribeiras, açudes, lavadouros e arvoredo maduro do concelho, e qual o seu estado actual. Este inventário custa uma fracção do que custa uma requalificação de praça, e evita o erro mais comum, o de investir em soluções novas enquanto se ignora património que já cumpre a função pretendida e só precisa de ser desimpedido. Recuperar um lavadouro esquecido ou desassorear um troço de ribeira não entra facilmente numa candidatura a fundos europeus de grande escala, mas devia entrar no primeiro ano de mandato de qualquer autarquia com Verões cada vez mais longos pela frente.
Um país cada vez mais quente vai precisar de investimento de grande escala, isso é certo. Mas vai precisar, sobretudo, de milhares de pequenos lugares onde a água, a sombra e a memória colectiva ainda estão à espera de ser reconhecidas como aquilo que sempre foram: infraestrutura essencial.
Nuno Mamede Santos
Nuno Mamede Santos é o fundador da Terracrua Design e do Instituto de Planeamento Regenerativo. Com mais de vinte anos de experiência em três continentes, dedica-se ao planeamento territorial regenerativo, integrando hidrologia, ecologia e economia numa visão sistémica do território.
Publicado a 14 de Setembro de 2026 no Expresso: https://expresso.pt/opiniao/2026-09-14-o-que-e-um-refugio-climatico–266eb36d