A Permacultura que Ficou Pequena
Estou num curso de permacultura. O cenário é familiar: uma quinta algures no interior, vinte e poucas pessoas sentadas em círculo, um quadro branco com os três pilares éticos desenhados, galinhas a passar ao fundo. O formador explica a zona 1; a horta perto de casa; e alguém pergunta sobre consociações de alface. É tudo muito simpático. É tudo muito pequeno.
Lá fora, a bacia hidrográfica está a morrer. Os solos perdem centímetros por década. Os aquíferos baixam metros por ano. Os incêndios repetem-se com precisão sazonal. A água que cai no Inverno chega ao mar em dias, em vez de alimentar nascentes durante meses. E nós aqui a falar de alface.
Não tenho nada contra alfaces. Nem contra galinhas, nem contra hortas em mandala, nem contra círculos de partilha. Tudo isso tem valor. O problema é que a permacultura prometeu outra coisa. E ficou presa no quintal.
Quando Bill Mollison publicou o Permaculture: A Designers’ Manual em 1988, não estava a escrever um livro de jardinagem. Estava a propor um sistema de design capaz de reorganizar paisagens inteiras, economias, padrões de povoamento, fluxos de energia e matéria. O subtítulo não deixava dúvidas: «A designer’s manual». Não era para hortelãos de fim-de-semana; era para quem quisesse redesenhar civilizações.
Mollison era geógrafo, cientista, provocador. Olhava para sistemas à escala de bacias hidrográficas. Falava de «paisagens comestíveis», mas também de estradas, urbanismo, economia, estrutura social. A permacultura nascia como ferramenta de pensamento sistémico aplicado ao território. O jardim era exemplo pedagógico, não fim em si.
David Holmgren, co-fundador do conceito, foi ainda mais longe. Em Permaculture: Principles and Pathways Beyond Sustainability, de 2002, escreveu sobre descida energética, colapso de sistemas complexos, reorganização social. Os doze princípios que formulou não eram técnicas de cultivo; eram lentes para analisar qualquer sistema; energético, económico, político.
E P.A. Yeomans, o engenheiro australiano cujo trabalho em keyline design inspirou directamente Mollison, pensava à escala de propriedades inteiras, de vales, de bacias. O seu livro de 1954, The Keyline Plan, propunha uma leitura topográfica do território que permitia rehidratar paisagens, inverter processos de degradação, criar abundância a partir da geometria do terreno.
Isto era a permacultura. Não era pequena.
O que aconteceu?
Aconteceu o que acontece a muitos movimentos: institucionalização, simplificação, mercantilização. O PDC; Permaculture Design Course, o curso de 72 horas que Mollison desenhou para formar designers; tornou-se produto. Há hoje milhares de pessoas certificadas em todo o mundo. A maioria nunca desenhou nada além do próprio quintal.
O formato de 72 horas, pensado como introdução intensiva, cristalizou-se em currículo sagrado. Dois fins-de-semana por mês durante alguns meses, ou duas semanas seguidas num retiro bucólico. Sai-se de lá com certificado, vocabulário novo e entusiasmo. Falta quase tudo o resto: prática de desenho a sério, leitura de topografia, compreensão de hidrologia, capacidade de intervir em sistemas complexos.
A permacultura tornou-se subcultura. Desenvolveu estética própria, linguagem própria, circuitos próprios. Festivais, ecoaldeias, redes de trocas, grupos de Facebook. Tudo isto tem valor comunitário. Mas a subcultura fechou-se sobre si mesma. Em vez de infiltrar o mainstream; urbanismo, engenharia, política pública, planeamento territorial; criou um mundo paralelo onde se fala para quem já concorda.
E o mercado aproveitou. Há hoje um ecossistema económico inteiro a viver de cursos, workshops, consultorias, livros, vídeos, retiros. A permacultura tornou-se carreira possível para quem sabe comunicar bem. Nada contra; eu próprio faço parte desse ecossistema. Mas quando o modelo de negócio depende de formar cada vez mais pessoas em cursos introdutórios, o incentivo não é aprofundar; é alargar a base. Mais alunos, mais PDCs, mais certificados. Menos prática, menos escala, menos impacto.
O resultado está à vista. Em Portugal, a permacultura chegou há mais de trinta anos. Houve pioneiros sérios, projectos notáveis, trabalho real no terreno. Mas olho à volta e pergunto: onde estão as paisagens transformadas? Onde estão as bacias hidrográficas regeneradas? Onde está a influência nos planos directores municipais, nas políticas de água, no ordenamento florestal?
O que vejo são quintas bonitas; algumas muito bonitas; rodeadas de território em colapso. Ilhas de abundância num mar de degradação. Demonstrações do que é possível; não transformação do que existe.
Não é culpa das pessoas que fizeram essas quintas. Fizeram o que podiam com os recursos que tinham. Criaram refúgios, laboratórios, provas de conceito. Isso tem valor. Mas a permacultura prometia mais do que refúgios. Prometia redesenhar o sistema. E o sistema continua intacto.
Há uma espécie de conforto em ficar pequeno. O quintal é controlável. A escala doméstica não exige lidar com autarquias, com vizinhos difíceis, com propriedade fragmentada, com interesses instalados, com a lentidão das instituições. Fazer a própria horta é acto de liberdade individual. Mudar a política de água de um município é guerra de trincheiras.
Mas aqui está o problema: os sistemas que nos estão a matar operam à escala de bacias, de regiões, de países. A erosão não respeita vedações. O fogo não pára na estrema. O aquífero não sabe onde acaba a tua quinta e começa a do vizinho. Se a intervenção fica na escala da propriedade, o sistema maior continua a funcionar; e a degradar.
A permacultura não precisa de ser reinventada. Precisa de ser levada a sério.
Os princípios estão lá. A ética está lá. As ferramentas conceptuais existem. O que falta é aplicá-las à escala certa.
Isso significa passar do quintal para a bacia hidrográfica. Significa aprender a ler topografia não em hectares mas em dezenas de quilómetros quadrados. Significa compreender hidrologia de paisagem: onde cai a água, como escoa, onde infiltra, onde poderia ser retida. Significa pensar em sistemas de retenção distribuída; centenas de pequenas intervenções coordenadas; em vez de um açude bonito na própria terra.
Significa também entrar em território incómodo. Política. Governação. Propriedade. Financiamento. Poder. A permacultura dos workshops evita estes temas. Fala de ética e de cuidar da terra, mas raramente de como mudar as regras do jogo. Ora, as regras do jogo são exactamente o que determina se o território regenera ou colapsa. Um PDM mal feito faz mais estragos que mil hectares de má agricultura. Uma política de água errada destrói aquíferos que demoram séculos a recuperar.
Redesenhar civilizações; o que a permacultura prometia; exige redesenhar instituições, leis, fluxos de capital, estruturas de decisão. Não basta plantar árvores. É preciso mudar as condições que determinam que árvores se plantam, onde, por quem, para quê.
Há quem já esteja a fazer isto. Chama-se design regenerativo, planeamento territorial por bacias, economia biorregional; os nomes variam, o essencial é o mesmo. É permacultura à escala certa, com as ferramentas actuais.
Eu fiz o meu PDC há quase vinte anos. Aprendi coisas valiosas. Algumas uso todos os dias. Mas a maior parte do que faço hoje; planeamento de bacias, masterplans regenerativos, sistemas de informação territorial; aprendi depois. Aprendi porque percebi que a permacultura dos workshops não ia resolver os problemas que me interessavam resolver.
Não estou a dizer que os workshops são inúteis. São portas de entrada. São espaços de encontro. São momentos de transformação pessoal para muita gente. Mas porta de entrada não é casa. E a permacultura tratou a porta como se fosse o edifício todo.
Quando alguém me pergunta se deve fazer um PDC, digo que sim; se souber que é o começo, não o fim. Se estiver preparado para perceber que 72 horas não ensinam a desenhar sistemas complexos. Se quiser ir muito mais longe depois.
O desafio agora é construir esse «depois». Formações avançadas em design territorial. Prática real de intervenção à escala de bacias. Ferramentas de planeamento acessíveis. Pontes com engenharia, urbanismo, política pública. Projectos demonstradores que mostrem o que é possível; não em quintais, mas em territórios.
A permacultura que ficou pequena pode ainda crescer. Não crescer em número de certificados ou de workshops ou de páginas de Instagram. Crescer em escala de intervenção. Crescer em relevância para os problemas que realmente importam.
Mollison morreu em 2016. Deixou um legado imenso; e uma frustração que expressou muitas vezes: o movimento que criou estava a perder-se em trivialidades. Nos últimos anos, falava menos de hortas e mais de dinheiro, de poder, de sistemas económicos. Percebia que a mudança de que precisamos não acontece canteiro a canteiro.
Há uma frase que se atribui a ele, talvez apócrifa mas certamente no espírito: «Não tenho interesse em salvar o mundo; é um trabalho demasiado grande. Só quero que as pessoas parem de destruir os seus quintais.» Era ironia, claro. Mollison queria muito mais. Mas talvez soubesse que, às vezes, é preciso começar pequeno para pensar grande.
O erro foi ficar lá.
Nuno Mamede Santos
Nuno Mamede Santos é o fundador da Terracrua Design e do Instituto de Planeamento Regenerativo. Com mais de vinte anos de experiência em três continentes, dedica-se ao planeamento territorial regenerativo, integrando hidrologia, ecologia e economia numa visão sistémica do território.